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Salve Brejeiros!

Você deve conhecer alguém que passou um tempo em Londres, seja estudando, fazendo intercâmbio cultural, ou mesmo um tour na Europa. Pergunte a esse amigo para onde o londrino vai quando está afim de se divertir, encontrar os amigos e bater um papo. A resposta é uma só: eles vão aos Pubs!

O pub é uma verdadeira instituição, quase sagrada, para os britânicos. E o combustível para esse lazer não pode ser outro se não um belo pint de cerveja inglesa, ou simplesmente bitter, como eles chamam. Hoje os Pubs são locais populares mesmo fora da ilha britânica, em São Paulo já passam das dezenas de casas com o formato clássico londrino e claro, pints de cerveja caminhando por todo lado.

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Entretanto, não são apenas os pubs que podem ser creditados aos ingleses, na verdade boa parte dos estilos conhecidos hoje em dia vieram da Grã-Bretanha. As Porters, Stouts, Pale Ales, Brown Ales e popularíssimas India Pale Ales foram criadas pelos britânicos anos atrás, e popularizadas ao longo do tempo pelo seu consumo dentro das comunidades e vilas.

Na Inglaterra, a cerveja surgiu como opção de bebida de fácil acesso e baixo custo (a região era rica em produção de cereais, assim como a Alemanha) para atender à população, desde a classe operária até os mandantes do parlamento. Para consumir as cervejas, essa população se encontrava nas casas das produtoras (na época a mulher quem era responsável por fazer as cervejas, assim como pão, e eram apelidadas de “alewifes“, ou seja, “esposa cervejeira”) que faziam a cerveja em quantidades além do consumo próprio de sua família. Esses pontos de encontro foram evoluindo até chegarem a se tornar locais públicos (public house, daí o termo “pub”).

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Ao longo do tempo, duas grandes mudanças trouxeram a verdadeira identidade pela qual é conhecida a cerveja inglesa hoje em dia. A primeira delas foi a introdução do lúpulo na produção da cerveja. No início, rejeitada pelos produtores mais tradicionais, o lúpulo passou a ter papel fundamental nas ales inglesas, fazendo nascerem estilos como as Bitters, English Pale Ale e um pouco adiante, as Indians Pale Ale.

Décadas para frente, durante a revolução industrial, outra cerveja caiu no gosto da população inglesa. As Porters, que tem seu nome derivado dos trabalhadores dos portos ingleses, maiores consumidores do estilo pelo seu baixo custo e sabor intenso, foram o gancho para o crescimento e renascimento das cervejas inglesas junto à população.

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Enquanto isso, na Irlanda, nascia um estilo semelhante ás porters, mais forte, amarga e com maltes mais tostados. O estilo, batizado de Stout Porter (passando apenas para Stout depois de um tempo) fez muito sucesso e se juntou ao grupo de cervejas mais vendido nas ilhas britânicas. O maior exemplo desse sucesso é a Guinness, uma das marcas mais representativas de um estilo e até mesmo de um país relacionado a cervejas. Criada em 1759 por Arthur Guinness, a cervejaria é hoje a maior produtora de cerveja stout do mundo, sendo que boa parte de sua produção tem como destino o consumo interno (em versão on tapI, ou seja, em chope, direto para os pubs).

Em paralelo ao nascimento das cervejas inglesas e irlandesas, na Escócia a tradição era um pouco diferente. O país, conhecido por seus whiskys, tinha nas cervejas um retrato fiel do gosto de seu povo. As scotish ales são mais encorpadas, escuras, doces e com teor alcóolico considerável, priorizando os sabores dos maltes. A tradição diz inclusive que as cervejas devem ser pedidas de acordo com seu teor alcóolico, e dessa mesma forma elas eram classificadas (60/70/80 ou 90 shillings, antiga moeda escocesa – quanto mais cara, mais alcóolica). Hoje, o estilo escocês mais famoso é o Strong Scotch Ale, ou “Wee Heavy”.

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Outro ponto muito importante para a história da escola britânica é o CAMRA. O CAMRA (Campaign for Real Ale – Campanha para Ale Verdadeira) nasceu após a invasão, nos anos 60 e 70, das cervejas lagers comerciais, criadas na República Tcheca e produzidas em larga escala na própria Grã-Bretanha, nos bares e pontos de vendas ingleses. A ideia da campanha era trazer de volta a tradição da cerveja ale inglesa, servida nos pubs on cask, ou seja, em barris de madeira onde eram maturadas. Trazer de vota a forma de produção e consumo antigo dos pubs ingleses foi o jeito encontrado pelos organizadores do CAMRA de buscar de volta uma tradição perdida e fazer o consumidor ter um produto de qualidade, fugindo das cervejas feitas pelas gigantes macros-cervejarias e suas campanhas de marketing milionárias. Essa iniciativa rendeu bons frutos, e hoje as ales inglesas são consumidas e adoradas em boa parte do mundo.

O CAMRA também é apontado como grande responsável por outra revolução: o renascimento da cerveja artesanal nos Estados Unidos e a criação da Nova Escola Americana, que é o tema do próximo artigo sobre escolas cervejeiras. Por enquanto, fiquem abaixo com o vídeo da degustação das cervejas da escola britânica.

Cheers!