
Inovação no reaproveitamento de água na indústria leiteira

Reaproveitamento de água é uma das soluções mais estratégicas e urgentes para o desenvolvimento industrial moderno no Brasil. Enquanto a população global lida com os impactos crescentes das mudanças climáticas, a percepção humana sobre riscos de longo prazo muitas vezes falha em gerar reações imediatas e transformadoras. Diferente de um sinal sonoro de alarme de incêndio ou da urgência imediata ao atravessar uma avenida movimentada, os desafios associados à escassez hídrica não ativam instantaneamente o estado de alerta na sociedade. Essa ausência de um sentimento de urgência direta acaba levando a um descuidado sistemático no consumo diário do recurso, bem como no gerenciamento de resíduos dentro dos processos fabris. Embora o território brasileiro possua a maior reserva de água doce de todo o planeta, essa posição confortável infelizmente alimenta a falsa ilusão de que a água é um recurso infinito.

De acordo com dados consolidados pelo Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento, o volume total de água potável desperdiçado no Brasil atingiu a impressionante marca de 7,0 bilhões de metros cúbicos apenas no ano de 2022. Para compreender a dimensão real desse volume a partir das métricas divulgadas pela Organização das Nações Unidas, que aponta o consumo médio diário do brasileiro em aproximadamente 154 litros por pessoa, a quantidade jogada fora em 2022 seria suficiente para abastecer integralmente todas as necessidades de uma população de 124 mil habitantes ao longo de um ano inteiro. Essa discrepância ressalta a urgência de implementar medidas de contenção e eficiência hídrica no país.
Dentro do cenário de consumo nacional, o setor produtivo exerce um papel de enorme relevância. As informações disponibilizadas no Manual de Usos Consuntivos da Água no Brasil, publicado pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico, apontam que o campo industrial figura como o terceiro maior consumidor de água no país. Do volume total captado por esse segmento, cerca de 40,5% é destinado especificamente para a produção de alimentos e bebidas, uma fatia expressiva que tende a se expandir com o avanço da economia. Dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços indicam que a indústria nacional registrou um crescimento de 8,4% em 2024 em relação ao ano anterior, reforçando a necessidade do reaproveitamento de água e de projetos de mitigação dos impactos ambientais.

Como funciona o reaproveitamento de água na indústria
O reaproveitamento de água dentro do ambiente industrial exige investimentos contínuos em tecnologia e o redesenho dos modelos operacionais tradicionais. No município de Hidrolândia, localizado no interior do estado de Goiás, uma fábrica de laticínios tornou-se referência ao desenvolver um projeto completo focado na destinação sustentável dos efluentes do seu parque fabril. Desde o ano de 2018, a Marajoara Laticínios mantém uma iniciativa estruturada em parceria direta com produtores rurais locais, unindo ganhos de produtividade no campo com uma gestão altamente eficiente dos resíduos hídricos gerados na transformação do leite.
O coração do sistema de reaproveitamento de água da empresa é a sua Estação de Tratamento de Efluentes instalada estrategicamente dentro do próprio parque produtivo. A unidade operacional utiliza o processo tecnológico de flotação de ar dissolvido para realizar a purificação do efluente gerado nas etapas de processamento lácteo. Por meio dessa metodologia avançada, a indústria consegue purificar a água a um nível de qualidade superior a 90%, patamar que supera consideravelmente as exigências mínimas fixadas pela legislação ambiental brasileira. Esse processo separa de forma eficiente a fase líquida dos resíduos orgânicos suspensos.

Benefícios do reaproveitamento de água para o campo
O reaproveitamento de água estruturado pela indústria goiana gera subprodutos de alto valor agronômico que beneficiam diretamente a comunidade agrícola regional. A partir do processo de flotação de ar dissolvido na Estação de Tratamento de Efluentes, obtém-se uma biomassa orgânica extremamente rica em nutrientes fundamentais para a fertilidade do solo. No passado, esse resíduo sólido era encaminhado diretamente para uma fazenda de compostagem externa. Contudo, após a realização de estudos técnicos detalhados que comprovaram seu altíssimo poder de adubação, a empresa alterou a destinação do material.
Com a validação das propriedades fertilizantes da biomassa, a indústria passou a fornecer esse insumo valioso para pequenos produtores de leite cadastrados no projeto. O transporte do fertilizante orgânico é feito por meio de caminhões pipa que levam a matéria nutritiva diretamente até as propriedades rurais de Hidrolândia e região. Essa aplicação no solo fortalece a estrutura das pastagens, assegurando que os pequenos pecuaristas locais consigam manter a produtividade de seus rebanhos e a produção de leite mesmo durante as épocas de seca prolongada que afetam o bioma local.
A segunda vertente do reaproveitamento de água envolve a distribuição da parte líquida já tratada para a irrigação de lavouras e pastos. A água que passa pela Estação de Tratamento de Efluentes e atinge níveis elevados de pureza é canalizada e transportada por uma rede de tubulações ao longo de um quilômetro de distância. O destino final é uma área de pastagem dedicada exclusivamente à criação de gado de corte. No local, foi instalado um sistema especializado de irrigação composto por aproximadamente 600 aspersores distribuídos uniformemente pela área verde.
Tecnologia aplicada ao reaproveitamento de água industrial
A tecnologia envolvida no reaproveitamento de água da fábrica de laticínios funciona de forma contínua e programada para garantir a máxima absorção pelo ecossistema sem gerar saturação do solo. Segundo dados detalhados por Vinícius Junqueira, diretor geral da Marajoara Laticínios, a estrutura de irrigação lança na pastagem uma média de 75 mil litros de água purificada por hora. A operação ocorre em ciclos de 12 horas diárias, o que totaliza a marca de um milhão de litros de água de reuso reaproveitados a cada dia na propriedade agrícola parceira.
Essa irrigação constante baseada no reaproveitamento de água garante que o pasto permaneça verde e altamente nutritivo durante todo o ano, neutralizando os efeitos danosos das estiagens severas na região centro-oeste. Após cumprir o papel de irrigar a vegetação e fornecer a umidade necessária para o crescimento da pastagem, o volume de água aplicado é absorvido naturalmente pelas camadas da terra e retorna de forma limpa ao lençol freático. Esse ciclo fecha com precisão o balanço hídrico, garantindo a sustentabilidade da bacia sem qualquer risco de contaminação do solo ou dos rios locais.
Todas as etapas operacionais e os impactos ambientais do projeto de reaproveitamento de água foram minuciosamente avaliados e validados por meio de um estudo técnico promovido pela Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Hídricos de Goiás. O rigor dos resultados obtidos no campo e no parque fabril garantiu à iniciativa uma importante premiação de alcance nacional. No ano de 2021, o projeto da indústria de laticínios foi o vencedor do Prêmio Crea de Meio Ambiente, conquistando a primeira colocação na categoria Elementos Naturais.
O impacto do reaproveitamento de água na sustentabilidade
O impacto positivo gerado pelo reaproveitamento de água no setor industrial mostra que a adoção de práticas sustentáveis traz benefícios concretos que vão além do cumprimento de normas legais. Ao transformar um efluente que originalmente exigiria descarte em um insumo capaz de irrigar um milhão de litros diários e fertilizar pastagens locais, a indústria alimentícia consolida um exemplo prático de economia circular. A integração entre a fábrica e os pequenos produtores rurais fortalece toda a cadeia leiteira da região de Hidrolândia.
Considerando o cenário em que a indústria nacional expande seu ritmo produtivo e a demanda por recursos hídricos cresce continuamente, o reaproveitamento de água torna-se um pilar indispensável para garantir a segurança hídrica e a preservação ambiental. O exemplo vindo do interior de Goiás demonstra que o investimento em estações de tratamento avançadas e a destinação inteligente de resíduos geram valor econômico, social e ecológico de longo prazo para toda a sociedade brasileira.
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