Para ver as primeiras partes desse artigo, clique 1 e 2. e 3.

Anteriormente, na parte 3 desse artigo, finalizamos as características relativas a uma avaliação.

Desta vez vamos mostrar como realizar uma avaliação de forma prática.

Primeiramente deve-se escolher uma cerveja para ser avaliada, como exemplo escolhemos a cerveja Bamberg Rauchbier.

A avaliação já incia na observação do rótulo da breja e na verificação de alguma proposta não usual, seja pela adição de algum elemento ou tipo de produção. No caso da Bamberg observamos que se trata de uma Rauchbier Clássica.


Para realizar a avaliação devemos observar quais as características inerentes ao estilo, para isso, consultamos o guia da BJCP.

Nosso exemplo trata-se de uma cerveja do tipo Smoke-Flavored Beer (família 22), estilo Classic Rauchbier (22A), na descrição consta as características de aroma, aparência, sabor, sensação na boca (tato) e impressão geral. Para uma cerveja para ser considerada bom exemplo de estilo, deve seguir as características apontadas e ser harmoniosa nesses itens. Por isso é exatamente as características que iremos avaliar.

Antes de servir a cerveja, precisamos observar qual temperatura é ideal para seu consumo, para este estilo a temperatura deve girar em torno de 6 a 10⁰. Relembrando que : estupidamente gelada não deve mais fazer parte do seu vocabulário!

Outro detalhe muito importante é o copo, que deve ser compatível com o estilo. Nesse caso, aconselho servi-la no copo tipo Pint ou Tulipa. Lembrando, caso não tenha um copo adequado, utilize uma taça de vinho larga, que é um “coringa” para a maioria dos estilos. Usamos em nossa avaliação um Pint de 500ml.

É importante ressalvar também que o copo deve estar limpo, sem resquícios de sabão, que é o inimigo número 1 da formação da espuma. Há algumas pessoas que indicam servir a cerveja com o copo levemente umedecido, para melhor formação da espuma. Eu particularmente não gosto, prefiro que o copo esteja totalmente seco. Como não é uma regra, faça o teste e veja qual o melhor método para você.

 

Outro detalhe importante é, não “gele” o copo antes de servir, é um erro muito comum praticado por muita gente. O copo deve estar na temperatura ambiente, se estiver gelado o contato da cerveja com o copo vai condensar a bebida, alterando o sabor e a temperatura em que será servida.

Na hora de servir, atente-se ao estilo da cerveja também. No nosso caso, temos uma cerveja que será servida no modo tradicional. Incline o copo em 45 graus em relação à mesa e despeje até a metade da cerveja, se a formação da espuma for muito abundante, mantenha o copo inclinado o quanto possível, se não for, deixe o copo reto até o final da garrafa. Lembrando, o colarinho é muito importante para a análise do aroma e na manutenção da temperatura da cerveja.

Os casos que não atendem a essa orientação são as cervejas de trigo (Weissbier, Dunkelweizen, Weizenbock). Nesse caso, além do copo apropriado à cerveja (Weizen), faltando cerca de 100 ml para completar o copo, deve-se agitar o restante da cerveja, para diluir o fermento acumulado no fundo da garrafa. Essa parte é, para muitos, a alma da cerveja e deve ser sempre lembrada.

Após servida, o primeiro passo é analisar o aroma. Costumamos fazer essa análise antes, pois alguns aromas são muito voláteis e podem “sumir com facilidade”. Cheire a cerveja e anote todos os aromas que você sentir.

Não importa se o ingrediente foi ou não adicionado a cerveja, o aroma sentido deve ser reportado, pois as vezes esse aroma pode significar outras características. Um exemplo são as IPAs, que as vezes apresentam aroma de maracujá e manga, mesmo não tendo esses elementos, pois o aroma vem do lúpulo adicionado, que lembra essas frutas. Sinta novamente o aroma e vá anotando, agora observando a presença dos maltes e lúpulos. No início, é difícil saber diferenciar esses aromas no conjunto, mas com o tempo você vai saber identificar, mas para isso é preciso treino (ou seja, beber muitas!).

Lembrando, é interessante sentir o aroma da cerveja com ela após a temperatura estar mais elevada, pois com a cerveja mais “quente”, alguns aromas são mais facilmente identificados. Com os aromas devidamente anotados, analise se eles seguirão o descrito para o estilo e se foram agradáveis e dê sua nota. No nosso exemplo, o aroma é bem defumado, lembrando bacon. A presença de maltes é aparente e doce, lúpulo não aparece. Aroma agradável e compatível com o exemplo.

Nota 7 de 10.

Próximo passo, veja a aparência. Cor da cerveja (de acordo com a tabela SRM), transparência (translúcida, turva ou opaca), cor da espuma, formação e persistência da espuma (de acordo com estilo, sendo baixa, média ou alta).

Uma dica é olhar a cerveja de encontro com a luz, é a forma mais exata de identificar a correta coloração da cerveja. Outros pontos a serem observados: cremosidade da espuma (espuma cremosa é sinônimo de qualidade), tamanho das bolhas (quanto maiores, pior) e partículas suspensas na cerveja ou depositadas no fundo (dependendo do estilo é normal, na maioria significa problemas).

Essa é a característica mais objetiva e fácil de ser julgada. No nosso exemplo, a cerveja apresentou coloração castanho claro turva, com média formação e persistência de espuma. Uma boa apresentação.

Nota 4 de 5.

 

Enfim, beba a cerveja!!!! O primeiro gole deve permanecer por um tempo na boca antes de engolir. Anote as primeiras sensações após engolir: comente a presença dos maltes, do lúpulo, como o sabor seguiu o aroma (e se seguiu), quais sabores ficaram na boca, qual a sensação logo após engolir (final, que pode ser curto, médio ou longo), qual o sabor fica na garganta e fundo da língua após beber (aftertaste ou retrogosto), a cerveja é bem balanceada, ou seja, os elementos são harmoniosos e agradáveis.

Continue bebendo a cerveja e siga anotando as percepções. Se a cerveja está dentro do que se espera e realmente o sabor agradou, dê a nota de acordo com as suas percepções. Nos casos em que você não tenha experimentado nenhuma cerveja desse estilo anteriormente, é muito importante observar sua descrição, para não cometer nenhuma injustiça por falta de parâmetro.

O nosso exemplo apresenta maltes defumados são bem presentes, seguindo o aroma. Final médio, aftertaste defumado e longo. Bem balanceada. Dentro do estilo, mas poderia ser mais potente em alguns aspectos.

Nota 15 de 20.

Ainda bebendo, observe as sensações relativas ao tato. Observe o corpo da cerveja, ou seja, quão espessa ela é (pode ser leve, médio ou denso), carbonatação, que é a quantidade de “gás” na cerveja (também conhecida como “crocância”, pode ser baixa, média ou alta). Itens que devem ser analisados são o”calor” (quando a cerveja esquenta a boca, caso das mais alcóolicas), adstringência e outras sensações. Essas noções são, em minha opinião, as mais difíceis no início.

No nosso caso, o corpo é médio, carbonatação média. A breja é bem refrescante, mas sem perde a força de seus elementos. Nota 3 de 5.

E para finalizar, as impressões gerais, quanto gostou da cerveja e qual a sua drinkability, ou seja quão gostosa ela desce e a vontade de pedir mais uma. Faça uma avaliação geral da cerveja, dentre elas tudo que já foi avaliado e dê uma nota geral. No nosso caso, a breja é muito boa, um bom exemplo do estilo e tem drinkability ótima.

Nota 7 de 10.

Nota final: 3.6 de 5.0.

Assim encerramos nossas dicas de como avaliar uma cerveja. Lembrando que apesar de todas as dicas de avaliação, lembre-se que as vezes não tem nada melhor que beber uma cerveja despretensiosamente com seus amigos, sem se preocupar com formalidades, em um ambiente descontraído.

A cerveja é pra ser levada a sério apenas quando a oportunidade é para tal, se não for, beba com gosto e qualidade.

Cheers!